sábado, 24 de setembro de 2016

Tirar o Estado da lama



O Brasil é um extenso e rico país com uma população de mais de duzentos milhões de habitantes herdeiros de DNA das mais variadas etnias que compõem a humanidade. Absurdamente tem um Estado Mínimo e é dirigido por uma oligarquia. Realmente a democracia passa ao largo. Mas é pior, tem um governo golpista que só não cai porque os dirigentes do sistema judicial não aplicam a Constituição e agem como coniventes e irresponsáveis contra as seguidas manifestações populares. Não sou só eu quem diz isto, tenho o prazer de secundar o eminente jurista Fábio Comparato que fez uma honrada declaração pública e o ex-presidente da OAB do Rio de Janeiro, hoje deputado federal, Wadih Damous que põe a defesa da Justiça e da dignidade acima do mar de lama que invadiu a administração do pobre e mínimo Estado brasileiro.

É difícil conter a indigação, para eles e para nós, depois do espetáculo midiático organizado para denunciar fraudulentamente o ex-Presidente Lula com base em "convicções" e "acho que" de um bando de delinquentes que representaram o MPF impunemente. Uma vergonha nacional comentada em todo o planeta que só não atinge os milhões de brasileiros que vão trazer Lula ao seu lugar de "melhor Presidente da história do Brasil" em 2018. Conseguimos conter a indignação para tranquilamente organizar as formas de participação popular na recontrução de um Estado Social, que não será "Mínimo" como gosta a elite oligárquica.

Um Estado que não é subserviente ao mercado dirigido pelo império capitalista, que investe na produção nacional e nos trabalhadores do Brasil, que equilibra a distribuição de renda para acabar com a miséria e também com o enriquecimento ilícito, que defende a Justiça que emana da Constituição, que não aceita ser representado por bandidos e covardes, que garante os Direitos humanos e de cidadania, que é solidário com os povos em luta contra a exploração e o fascismo.

Temos a "convicção" de que as ações de Fora Temer, de mister Meirelles e do eterno ex-candidato Serra, somadas ao retumbante fracasso de Eduardo Cunha e a bruxa Janaina que o defendia, mais o "atentado fascista" perpretado em nome do MPF, foram um tiro-no-pé da quadrilha e reforçaram a consciência popular de que só alguem com as qualidades heróicas e patrióticas de Lula poderá retomar a condução do Brasil democrático que queremos. E será dado um passo adiante com a participação permanente do povo na defesa das conquistas democráticas e da defesa da dignidade nacional.

Hoje está claro que a raiz histórica dos problemas administrativos do país está no poder de uma oligarquia que mina 500 anos de história do Brasil. Os seus agentes simulam defender o povo e a democracia mas escamoteiam as verdadeiras intenções que são ditadas pelos seus chefes internacionais que só raciocinam em função do capital que circula pelos seus bancos e nos altos juros obtidos com as transações. Os partidos que usam a democracia no seu nome devem extirpar os maus elementos que se revelaram golpistas e reciclar os que se acovardaram e pretendem vir a ser democratas. É uma questão de honra.

Os brasileiros têm condições de impor um regime democrático depois de quatro governos com um programa de Fome Zero, Minha Casa Minha Vida, Luz para Todos, defesa da saúde pública, melhoria da educação, combate ao desemprego, apoio à investigação científica e à produção cultural, infra-estruturas para o desenvolvimento do Brasil profundo, integração latino-americana, participação na política internacional e agora o impulsionamento das Cidades Humanizadas. O Estado Mínimo, um "faz de conta" para o povo e instrumento de poder para a elite submissa às exigência do imperialismo, contraria a democratização da sociedade que reduz o fosso das desigualdades entre classes e impede o desenvolvimento nacional independente.

Não queremos que o modelo imposto na Europa - pela União Europeia casada com o FMI - que afundou os países na austeridade que poupa no desenvolvimento nacional e na vida dos trabalhadores para enriquecer milionários. A crise europeia está à vista de todos e sem solução enquanto os "golpistas de lá" se defrontam com o perigo de fazer ressurgir o fantasma da guerra e do fascismo que só foi derrotado em 1945 porque havia um Estado Socialista para agir em defesa da humanidade.

O programa de Fora Temer e sua quadrilha é a fotocópia do que foi implantado pela União Europeia para empobrecer os países que trocaram a independência por créditos mal aplicados, com um ajuste fiscal que congela os orçamentos das áreas sociais, altera a legislação laboral retirando direitos dos trabalhadores, reduz a segurança estabelecida na Previdência Social e abre caminho para um regime de exceção que é ditatorial. Ainda está presente no Brasil os efeitos de 21 anos de ditadura com o rol de crimes ainda por punir. Também não foram apagadas as ações positivas de democratas como Ulisses Guimarães e Tancredo Neves, que dirigiam o antigo MDB e morreram cedo deixando espaço para que os atuais dirigentes dos partidos herdeiros emporcalhem a sua memória.

Vamos retomar o rumo aberto por Lula e limpar a estrutura administrativa do Estado que abriu caminho para o golpe que subalterniza o Brasil.

Zillah Branco

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

A faxina é agora indispensável

Mister Henrique Meirelles, Ministro da Fazenda de Fora Temer, diz que "no Brasil há muito para ser privatizado", acrescentando que no mundo há muito dinheiro e que os Governadores dos Estados poderão também privatizar as suas empresas. Parece anunciar uma liquidação das riquezas que o povo brasileiro trabalhou para financiar o desenvolvimento da Nação independente. É daqueles que se puder colocar umas rodinhas na própria mãe anuncia a senhora como carro usado.


Sabemos que esta peça foi formada por WallStreet, mais diretamente o Banco de Boston. O seu comparsa na destruição do país (que pertence a mais de 200 milhões de brasileiros) é o ex-democrata José Serra, feito Ministro da Defesa, que fecha embaixadas como se fossem balcões de negócios em países sem compradores dos produtos oferecidos. O chefe Fora Temer, campeão Olímpico de vaias, revela-se incompetente para gerir a liquidação prometida aos Estados Unidos na sua antiga função, denunciada pelo Wiki Leaks, de serviçal informador.

Parece aos humanos, dignos deste título, de muito mau gosto tal governo para um país que cresceu e se humanizou com a sofrida resistência aos 21 anos de ditadura desde 1964 e que elegeu Lula e Dilma com um programa de crescimento econômico prestigiado internacionalmente promovendo o fim da Fome e a integração popular nas condições de cidadania. Não fosse a fragilidade do sistema judicial, com as suas contradições internas, e do sistema de alianças partidárias descomprometidas com os votos democráticos, este golpe criminoso não teria ocorrido.

O país avançou, a economia cresceu, o povo adquiriu consciência dos seus direitos de cidadania, as áreas esquecidas do Brasil profundo receberam infraestruturas, os brasileiros antes marginalizados foram alimentados e introduzidos na sociedade, milhares de iniciativas aperfeiçoaram os serviços públicos da saúde e da educação, organizaram a Petrobrás que hoje atrai a cobiça dos eternos colonizadores e ladrões das riquezas nacionais. Ainda falta muito para poder defender os criadores das riquezas e impedir os assaltantes inescrupulosos, mas a possibilidade de instalar um regime democrático foi provada.

A oposição alimentou as redes criminosas que pareciam agir por conta própria provocando acidentes, matando a esmo, iniciando distúrbios nas ruas e nas favelas; alimentou com formas de corrupção um setor ganancioso e desonesto com funções dentro do Estado enfraquecendo a coesão dos que lutam pela democracia; minou o sistema financeiro que condiciona a entrega de recursos para o desenvolvimento e favorecendo o enriquecimento ilícito que aumentou o fosso entre ricos e pobres.

E aí estão os golpistas com os pés amarrados em processos por fraudes e com a garantia institucional de que a Justiça não se faz. Eduardo Cunha, que além de todas as falcatruas usou a religião de uma Igreja Pentecostal para encenar no Congresso um teatro que desmoralizou a política brasileira, agora ameaça: "se me afastarem levo 150 deputados, um senador, um ministro"....provavelmente grande parte do governo interino. Tomara. Um bando de delinquentes, da pior espécie subiu como piolho por costura nos meandros do Estado. Não é a primeira vez que isto ocorre no Brasil dominado por oligarquias que se vendem na feira do imperialismo. Mas, pela falta de pudor, com uma sem-sem-vergonhice que ofende batedor de carteira, despertaram a revolta social e o desprezo mundial.

Foram cometidos erros por ignorância de quem nunca havia chegado ao poder governamental e que usou de boa fé para buscar alianças em cova de ladrões. Hoje sabemos que WallStreet preparou os que, sendo brasileiros antipatriotas, serviram de ponta de lança para dominar as finanças favoravelmente aos donos do Dollar. Foi o professor universitário Chossudowsky, do Canadá, que revelou a cilada em que os governos de Lula e Dilma cairão. Com a ajuda de boa gente que trabalha junto aos Estados imperiais ( felizmente está atenta e tem brio), vamos sendo alertados sobre os espiões tupiniquins que nos cercam. É que o problema que supurou no Brasil existe como câncer em todo o mundo. É um mal do sistema capitalista.

Mas não desanimemos, a ciência e o conhecimento objetivo dos fatos e das manigâncias evoluíram e há tratamentos que curam os organismos fortes. É preciso extirpar as células nefastas e limpar os tecidos sociais e institucionais. Vamos à faxina com a experiência que temos de lavar as escadarias, afastar os males, arrancar as pragas do jardim, esfregar com força as manchas mais profundas, raspar a porcaria que se infiltra nos cantos.

Fora Temer e sua quadrilha, que o Brasil é um país rico, feliz, solidário com os povos oprimidos, e é nosso - mais de duzentos milhões de brasileiros patriotas! Tem riqueza suficiente para organizar um Estado Social e aumentar o salário mínimo para que todos vivam como merecem e tenham emprego sem escravidão. Fora o ranço oligárquico da história nacional que impede a igualdade de condições de vida e a democracia!


quinta-feira, 8 de setembro de 2016

O golpe canalha

Os gritos contra as ditaduras multiplicam-se pelo mundo, o "terceiro mundo" que se escondeu atrás do termo "em desenvolvimento" para manter a esperança de acompanhar os países "mais organizados" que orientam o sistema capitalista no planeta. A globalização abriu portas de vai e vem, o que serve aos povos que aprenderam a lutar pelos seus direitos com as revoluções socialistas que ha 200 anos fazem escola mundial.


Enquanto as elites mais ricas exibem prepotentemente as suas habilidades em acumular o capital roubado aos que são permanentemente explorados (não só no terceiro mundo mas nas suas próprias nações), os trabalhadores e suas famílias unem-se mundialmente fazendo uso das informações que escapam ao funil da mídia restritiva especializada em imbecilizar populações distraídas. A elite especializa-se em gerir os recursos, as pessoas e os capitais, sem lembrar que estão a escravizar a humanidade e a destruir os últimos valores éticos que herdaram de uma história comum a todos. Acanalham-se aceitando formas de corrupção que os identificam como ladrões da sociedade e, vendendo a consciência, tornam-se escravos do sistema de exploração da humanidade que é ditatorial e terrorista.

A preparação de golpe, pela via da montagem de um caminho financeiro para enfraquecer a economia brasileira subordinada a forte dolarização, foi construída por WallStreet através de seus subordinados : Henrique Meirelles, Ilan Goldfnju e Armínio Fraga. Trabalham para provocar a desestabilização da economia brasileira que sofre uma sangria com o aumento da dívida externa. Quem afirma isto é o conhecido professor universitário Chossudowsky, do Canadá, referindo o "consenso de Washington" de fins da década de 90.

Mesmo podendo atuar no controle do Banco Central que Henrique Meirelles tentou tornar independente do poder governamental, não foi possível levar o Brasil a ser engolido pela crise do sistema que promoveu a destruição de vários bancos nos Estados Unidos e Europa, dada a pujança de empresas estatais como a Petrobrás e as múltiplas soluções para que a população que passava fome tivesse apoio direto do Estado e pudesse participar de um desenvolvimento nacional que construía passo a passo o caminho da capacitação popular para garantir a independência do Brasil. Convivíamos com os ladrões que sugavam as veias da nação e compravam consciências de candidatos a traidores da Pátria.

Mesmo nessas condições o Brasil foi reconhecido mundialmente pelo promissor caminho de desenvolvimento econômico, tornando-se membro do BRICS e do G20, cooperando com o progresso das instituições Latino-Americanas e afirmando a possibilidade dos governos combaterem o flagelo da fome e da discriminação social das populações autóctones no terceiro mundo.

Foi o momento que detonou a tendência golpista da oposição política dirigida pelos eternos candidatos vencidos em eleições democráticas, como José Serra e Aécio Neves que se reaproximaram de alguns elementos com cargos no Governo onde chegaram na carona das alianças. Liderados por Temer, seus prováveis cúmplices assumiram a vergonhosa condição de abrir caminho para um golpe político que desestabilizava o país permitindo o derrube da sua fortaleza econômica e social aguentada pelos milhões de trabalhadores e uma juventude estudantil que empenhara a vida na defesa da democracia. Foi um golpe canalha, vil, subalterno ao imperialismo, traidor da Pátria. Ecoou na memória dos democratas que assistiram o golpe de 1964 as palavras (repetidas agora pelo senador Requião) de Tancredo Neves: "Canalhas! Canalhas! Canalhas!"
Voltou à memória do povo brasileiro também a sua coragem de ir às ruas exigir novas eleições "diretas, já! " para não perder os frutos da transformação democrática tão sofridamente construída pelos brasileiros descentes e patriotas.

Fora Temer empossado às pressas como Presidente pelo hábil senador Renan Calheiros, que o substituiu enquanto tentava apresentar-se nos lugares de Dilma Rousseff no G20 e junto ao BRICS, confrangido pelas declarações internacionais que lamentam o golpe e recusam o golpista. Em São Paulo, Estado-feudo da reação (apesar de cidade aberta de luta jovem), a PM exerce a velha função terrorista de 64. Não têm pejo de recordar as torturas dos anos cinzentos que enlutaram o Brasil e os democratas de todo o mundo.

Mas a realidade mundial hoje é outra. No mesmo encontro do G20 (onde fora Temer), Obama foi repudiado pelo Presidente das Filipinas, e nada conseguiu em um diálogo com o Presidente da Rússia; as populações de Myamar, assim como de vários países do Oriente Médio e do Norte da Africa destroçados pelas invasões imperialistas, enfrentam policias para gritarem o seu direito à vida e à independência; os milhares de fugitivos das guerras terroristas financiadas pelos Estados Unidos e Israel, levam a sua imagem dantesca que lembra os extermínios fascistas da grande guerra pela Europa rica em busca de um socorro inexistente.

Frente a tais misérias, divulgam-se as listas dos depositantes em Paraisos Fiscais, veem à tona as maracutaias dentro de administrações públicas de corrupções na venda de submarinos, aviões e helicópteros de combate a incêndios, ou no investimentos a Bancos que desconhecem os direitos dos seus clientes de recuperarem as suas magras poupanças. O sistema capitalista vive da corrupção e ainda quer escravizar os trabalhadores fazendo pó das leis democráticas conquistadas. Os Direitos Humanos são desrespeitados sem que a ONU possa fazer valer a sua autoridade em nome da humanidade.

Qualquer protesto social hoje ecoa pelo mundo. Mesmo que a mídia fique muda, as redes criadas nas ruas e na net estabelecem o contato necessário para que o seu efeito seja multiplicado. Só mesmo a pequenez das pessoas ambiciosas e vendáveis leva alguns a reconhecerem Temer fora do contexto da sociedade brasileira. A canalhice não tem pátria, está à venda em qualquer lugar do mundo. Mas quem pisa a linha ouve o recado do seu povo e detona as guerras intestinas que ainda só borbulham.

O Primeiro Ministro de Portugal foi saudar o Presidente do Brasil. Diz ter ido a negócio entre Estados. Esqueceu-se da solidariedade internacional contra o impeachment forjado pelos golpistas que afastaram a legítima Presidenta do Brasil, Dilma Rousseff. Os negócios são prioritários, o som do capital é mais alto que o da consciência. O povo português tem boa memória do que pagou pelas missões de colonização e nas guerras para defender os negócios feitos em nome do Estado. Hoje enfrenta os incêndios com o apoio de aviões Russos, por solidariedade, que a União Europeia deixou de cultivar.


sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Um século de história sob o controle imperial

Opinião

Brasil: Um século de história sob o controle imperial


25 DE AGOSTO DE 2016


A condição do Brasil é, apesar da sua riqueza incontestável e das conquistas a nível científico, artístico e técnico, de subdesenvolvimento. Permanece sujeito à exploração neocolonial como o foi na fase colonialista. E isto se deve a uma elite que circula pelo poder político subordinada ao domínio do sistema financeiro nacional e internacional. Não cabe uma análise moralista dos que intervêm na vida nacional, mas a imagem do país terá de ser ética, para ser respeitado como formador íntegro da cidadania.

Por Zillah Branco

Boas pessoas quando jovens, recusam uma dedicação patriótica que os animou quando ainda tinham sonhos de heroísmo em que entregavam a vida para defender a independência nacional e o desenvolvimento do seu povo, como se fosse expressão de fraqueza ou ingenuidade, coisas de criança. Justificam a mudança de rumo ideológico com o pretexto de que o momento é dos espertos para, depois, poderem caridosamente “ajudar os necessitados”. Despem a pesada capa de valores éticos que um dia vestiram e vendem a consciência e a alma, por atacado ou no varejo, a quem der mais. Passam, de uma “alucinação positiva para outra negativa”, referida por Flávio Aguiar (blog Boitempo).

Assim, ex-democratas que imitaram heróis de verdade, trocaram os objetivos pessoais e os princípios herdados que os obrigavam a ser íntegros, honestos, solidários, responsáveis e progressistas, pela perfídia, o desprezo autoritário, a crapulice, o prazer da traição, o gozo da maldade. Sentem-se, talvez, livres de um peso que os tornava gente comum. A meta é o poder que compra prazeres cobiçados.

É uma minoria, entre os que se agarram ao topo do muro, como se não participassem da traição visível. Esta segunda corja não se sente vendida, apenas mantêm os cargos de confiança com as regalias que as leis autorizam e esperam que a tempestade passe e que a inércia os proteja. Aceitam a acusação de “fracos”, pensando que merecem ajuda e compreensão.

Nada têm a ver com os que erraram e percebem que têm alguma responsabilidade no êxito dos traidores. “Só não erra quem não faz” e “errar é humano”, são velhos provérbios. Mas este respeito pelo direito a ter errado só vale para os que reconhecem o erro e procuram maneira de o corrigir. Perigosa é a aceitação passiva de “erros habituais”, abrindo um caminho permissivo sem volta. Quem procura justificações atirando os erros para outros, ou culpa alguém pela sua ignorância anterior, cai na situação dos fracos que se autodesculpam ou se promovem, por oportunismo.

Os que descobrem os erros e não se escondem merecem confiança, pois ajudam a revelar as falhas que aparecem com a transformação das condições sociais. E assim evolui a história, desvendando novas possibilidades de superação dos erros.

A história do Brasil é rica em heróis. Sem ultrapassar um século, vemos surgir a República destronando o monarca que, por ingenuidade popular e ignorância comandada, merecia confiança permitindo vagarosamente que fosse decretado o fim da escravidão e a expansão das ideias positivistas que abriram o caminho republicano e democrático. É verdade que a Primeira República foi dominada pelos senhores rurais e o fim da escravidão africana deveu-se também à pressão da Inglaterra. Tudo boa gente? Nem tanto.

As verdades começaram a ficar mais claras com o movimento tenentista, depois o sacrifício dos 18 do Forte de Copacabana, a seguir a Coluna Prestes que teve como dirigentes heroicos os jovens militares Luís Carlos Prestes, Miguel Costa, Siqueira Campos, mas também Eduardo Gomes e Juarez Távora e outros que seguiram depois por caminhos políticos ideologicamente contrários. Não traíram, apenas se divorciaram no desenrolar da história. Cada um dos heroicos dirigentes da Grande Marcha que desvendou a realidade vivida e sofrida, do sul ao norte do Brasil, pelo povo explorado e miserável, desenvolveu teorias diferentes para buscar corrigir os graves problemas nacionais.

“Não há solução possível para os problemas brasileiros dentro dos quadros legais vigentes. A questão não é de homens, mas de fatos, isto é, de sistema e de regime. Nenhum governo, mesmo animado das melhores intenções desse mundo, poderá, nos limites da legalidade normal, resolver os problemas nacionais em equação. A solução tem de vir de uma transformação radical em tudo, não apenas na superfície política, é preciso reorganizar o país sobre bases novas. É preciso criar novas bases econômicas e sociais de relações entre os homens que habitam e trabalham nesta grande terra. É preciso quebrar, resolutamente, as cadeias que oprimem o Brasil e impedem seu desenvolvimento ulterior, sua expansão fecunda e gloriosa.” (Luís Carlos Prestes, entrevistado no final da Grande Marcha por Astrogildo Pereira, 1928)

“Estas coisas ditas por Prestes têm uma importância fundamental. Elas mostram que a Revolução, para Prestes, não é um mero motim militar. Ela é um fenômeno social infinitamente mais complexo. Para resolver os problemas nacionais, a Revolução tem que ser um vasto e profundo movimento popular em que o elemento militar desempenhe o papel – já de si imenso – de dínamo propulsor. Evidentemente, movimento dessa natureza, assim amplo e difícil, não pode ser obra de um simples momento de exaltação. Ele exige, ao contrário, longa, paciente, laboriosa preparação. E a esta preparação, devem consagrar-se, coordenadamente, todas as forças progressistas do país.” (Astrogildo Pereira, transcrição da entrevista citada para o Jornal “Diário da Manhã” do Recife)

Eduardo Gomes e Juarez Távora lideraram partidos políticos que defendiam o sistema capitalista “humanizado” e eram admirados pela crescente burguesia nacional que ligava a oligarquia rural ao empresariado urbano animado pelo apoio da Inglaterra ou dos Estados Unidos sem ver que aquele povo miserável do Brasil profundo era cada vez mais explorado e afastado da condição de cidadãos brasileiros.

E assim seguiu a história do Brasil subdesenvolvido cobiçado pelo imperialismo por um caminho cheio de curvas até 1964 quando foi dado um golpe sob a cobertura dos militares. A repressão ditatorial promoveu a aproximação dos progressistas que levantaram uma bandeira “democrática”. Surgiu o Movimento Democrático Brasileiro, única porta aberta à esquerda pois os comunistas e todos os que agissem como militantes de uma causa socialista foram para a clandestinidade perseguidos, torturados ou mortos. Passaram-se 21 anos cinzentos que deram origem à formação de novos caminhos para a reconquista da liberdade de expressão. Os que se consideravam “democratas” e defendiam o neoliberalismo formaram os primeiros governos. O governo de FHC aproximou-se das forças dominantes definindo a direita nacional submissa ao poder financeiro internacional.

Com a formação do PT foram aglutinadas diferentes forças de esquerda que impulsionavam movimentos sociais e sindicatos operários, contando com iniciativas de setores da população que militam independentes de organizações partidárias junto a igrejas, universidades, associações várias. Lula é eleito com um programa contra a Fome que merece a admiração internacional, e pela integração popular cidadã com o apoio de partidos de várias tendências acobertadas pelo termo genérico da “social democracia”. O governo abre caminhos contraditórios entre si, desconhecendo a luta de classes que se agrava à medida em que a injusta distribuição de rendimentos sacrifica o atendimento social às camadas mais pobres, antes marginalizadas, e favorece a acumulação do capital da elite empresarial que põe em prática o sistema de corrupção, de promoção de privilégios salariais e impunidade judicial, fortalecidos pelo controle da mídia que funciona como um quarto poder no país. Aparentemente o Brasil é fortalecido pela autonomia na exploração das suas riquezas e na redução visível da miséria que assolava um terço da sua população, o que promove a ilusão de que estava livre das crises do sistema capitalista.

A linguagem política dos liberais altera-se à medida em que crescem as reivindicações, de base democrática e de respeito por categorias antes desprezadas – mulheres e trabalhadores – de modo a distanciar-se do discurso e dos partidos revolucionários. Aparentemente desaparece a luta entre classes e emerge uma classe média que tem como objetivo identificar-se com a alta burguesia a começar pela aparência e o comportamento modelado sob o comando da mídia. A indústria lança produtos de qualidade inferior com o desenho das marcas mais caras e investe na propaganda do “consumismo” como padrão de modernização. Este novo estrato social repudia os mais pobres e a consciência do proletariado que exerce a pressão para obter as conquistas da legislação do trabalho, e adere à ideologia liberal defendida pelo patronato. A democracia reduz-se, praticamente, ao combate à fome, às medidas corajosas de um Governo enfraquecido apoiado pelo povo, ao direito universal ao voto que é condicionado pelas campanhas eleitorais sob efeito de grandes somas de dinheiro, corrupção e a condução midiática sob o olhar cauteloso dos Estados Unidos dedicado a estraçalhar os países do Oriente Médio e da África onde vai buscar o petróleo com a parceria da União Europeia.

Paralelamente a nível mundial

As instituições de ensino superior e investigação científica, criadas ou apoiadas pelo imperialismo, aprofundaram os estudos do marxismo para poder combater o método dialético utilizado pelos revolucionários, com forte propaganda política embalada em linguagem democrática com sentido contrário. Com uma perspectiva de direita estudaram o marxismo e o percurso do socialismo realizado pela URSS e demais países revolucionários para se apropriarem dos êxitos incontestáveis da ideologia de esquerda tergiversando sobre os conceitos. Deram origem a novas interpretações teóricas que serviram de estímulo ao combate aos comunistas que referem a linguagem dos revolucionários do século XIX e início do XX quando o sistema socialista foi introduzido com a formação da União Soviética e os movimentos de libertação por ela apoiados em todo o planeta. Dessa maneira a direita apropriou-se da forma dos conceitos esvaziando do conteúdo revolucionário.

A Guerra Fria alcançou a sua meta antirrevolucionária depois de 70 anos de espionagem, terrorismo, fabuloso investimento em armas, invasões de países com movimentos de libertação em todo o planeta, formação de investigadores de todo o mundo para se apropriar do “know how” de todas os povos. Mas também com a apropriação de uma cultura que substitui a consciência da realidade social pela ambição pessoal de vencer a qualquer custo como fazem os animais selvagens facilmente controlados por sons e luzes que os encantam.

Como bem observam os chineses, agora que alcançaram o estatuto de grande potência e fazem sombra aos países mais desenvolvidos do sistema capitalista, hoje os que emigraram para estudar, deixando a sua produção científica nos países ricos, despertam para o necessário combate ao imperialismo e voltam atraídos pelas suas nações de origem em luta pelo desenvolvimento e com capacidade para aplicar as qualidades do sistema socialista em sociedades mais humanas e efetivamente democráticas. Deslumbrada com o brilho ofuscante do capitalismo fica uma população embrutecida sob o controle mecanizado do método antirrevolucionário para consumir qualquer novo produto que alimente a elite dominante (de que foi expoente máximo a sessão que aprovou o impeachment contra Dilma no Congresso Federal do Brasil).

O caminho foi aberto

A evolução se dá aos saltos e sofre retrocessos pontuais como os golpes que germinam na América Latina alimentados pela pressão de grupos contrarrevolucionários que alcançaram o controle de países ricos através da centralização de poder financeiro e domínio do chamado Mercado Livre no planeta. Os nichos criados pela política de direita reacionária aproveitam-se dos erros cometidos sob a pressão das necessárias alianças partidárias e usam os potenciais traidores da sua pátria mediante corrupção financeira e promoção institucional que são os pontos vulneráveis abertos pelo liberalismo, como assinalou Luis Carlos Prestes em 1928:

“É preciso quebrar, resolutamente, as cadeias que oprimem o Brasil e impedem seu desenvolvimento ulterior, sua expansão fecunda e gloriosa.”

E Astrogildo Pereira, que divulga este pensamento de Prestes, formula o caminho de luta:

“Para resolver os problemas nacionais, a Revolução tem que ser um vasto e profundo movimento popular (…) Evidentemente, movimento dessa natureza, assim amplo e difícil, não pode ser obra de um simples momento de exaltação. Ele exige, ao contrário, longa, paciente, laboriosa preparação. E à esta preparação, devem consagrar-se, coordenadamente, todas as forças progressistas do país.”

Lula assumiu, com êxito inegável, o papel heroico de líder popular ao ser eleito em 2002 por dezenas de milhões de brasileiros que repudiaram o programa neoliberal resultante, mais uma vez no Brasil, da combinação de tendências anti-ditatoriais apoiadas pelo vizinho imperialista que se considera dono do continente americano. O processo histórico desencadeado não se ateve às curtas rédeas do sistema capitalista vigente. Criou uma dinâmica para atender a grande massa popular com o produto do trabalho e das riquezas nacionais, o que levou a elite a abandonar a vestimenta democrática que envergara para contrastar com a ditadura falida.

Além de ser urgente a reconstrução da Nação – com a sua força produtiva voltada para o aproveitamento do patrimônio em benefício de uma população de mais de duzentos milhões de habitantes e do desenvolvimento das instituições sociais e de produção científica e artística, – impõe-se a reposição dos valores abandonados pelo sistema legislativo que mostrou a sua fragilidade na defesa do equilíbrio patriótico posto em causa por um ato golpista.



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terça-feira, 9 de agosto de 2016

FORA TEMER ! Apesar de você, o Brasil de amanhã será outra vez dos brasileiros

Apesar da história do subdesenvolvimento e da dependência econômica impostos pelo sistema de dominação política, dos vícios da elite permissiva e inconsequente que domina o Estado, da falta de ética ou de inteligência de uns quantos que, com seus diplomas comprados, chegaram ao poder, Lula abriu um caminho para que o povo pensante e trabalhador chegasse ao comando da nação através da razão e da cultura "pé-na-terra" que une a gente boa brasileira.


Não ha "pokemons" que imbecilizem quem nasceu livre, com idéias claras, com valor para trabalhar e sorrir, com força e entusiasmo para participar da luta pela democracia, ao lado de irmãos que, pelas suas diferenças, representam todo o planeta unificados pela integridade e a honra de patriotas verdadeiros. A judoca Rafaela Silva conquistou o ouro nas Olimpíadas tornando-se um simbolo dos brasileiros que carregam os problemas da pobreza, da vida em favelas, da cor dos escravos, do gênero das mães humilhadas, e vencem!

Os comunistas lutam em duas frentes simultaneamente: o combate ao golpe que representa a falta de patriotismo, de honra, de decência, de dignidade, de honestidade, de ética e a construção de uma semente para gerar as cidades humanas onde o DNA golpista não terá espaço porque o poder será dos que cultivam os princípios democráticos e o respeito pelos direitos humanos. O que se deseja é que os recursos do país sejam aplicados a favor do desenvolvimento da produção social e das melhores condições de vida dos brasileiros honrados e patriotas - com transporte, cuidados de saúde, ensino com educação e solidariedade, segurança pública e social, emprego e lazer livres da exploração de classe e da alienação mental que condena à subordinação dos cidadãos a um poder desumano e golpista.

"Amanhã será outro dia", apesar do golpe que uniu oportunistas que pegaram carona no processo democrático e falhados vendidos aos ambiciosos que espalham as guerras e o terrorismo pelo mundo, o Brasil demonstrará que a sua cultura é mais forte porque visa a humanização da sociedade com igualdade para os trabalhadores e suas famílias e não a acumulação do capital para satisfazer uma elite ambiciosa.

O amanhã está ligado ao combate ao golpismo de hoje. São passos de um mesmo processo que a história do Brasil registra através dos séculos. Antes surgiram heróis que deram a vida ao seu povo como exemplos a serem seguidos em defesa da liberdade, a igualdade e a fraternidade. Apesar do domínio capitalista que retira o poder aos povos para centralizar nas instituições financeiras dirigidas por uma elite corrupta e egoísta, o povo brasileiro absorveu das conquistas mundiais e do exemplo dos seus heróis a formação social humanista que se desenvolveu como filosofia, ciência e arte que hoje se manifesta nas Frentes de Luta que dominam as ruas das grandes cidades em todo o país.

Referimos como exemplo a judoca Rafaela Silva que ao viver tantos sacrifícios pessoais - vitima de privações de recursos, de preconceitos elitistas, de egoísmos de quem se julga superior, da ausência de justiça democrática na sociedade - descobriu a sua força indomável na luta bem conduzida. Assim faz o povo brasileiro que não permite a uma quadrilha de invasores a serviço de uma elite terrorista, roube a sua Pátria amada construída ha meio milênio por trabalhadores de tantas origens que não se vendem, a si e à sua cultura, à sua história, aos seus valores éticos, ao seu exemplo humano, por dinheiro nenhum. Lutam e vencem!

Não podemos continuar a perder tempo. Temos de nos preparar para a construção das cidades humanizadas com debates sérios sobre como produzir sem o esbanjamento da elite, sem a formação do mau caráter de golpistas, sem a infiltração de inimigos, sem os privilégios que impedem a justiça democrática, com o desenvolvimento da liberdade, da igualdade e da fraternidade. Contaremos com o interesse e a solidariedade dos outros povos latinos-americanos e dos que, em todo o planeta, lutam pela paz e a democracia.

Fora golpistas! Viva a luta popular no Brasil! 


terça-feira, 2 de agosto de 2016

Que Brasil queremos?




As teorias são ferramentas particulares de conhecimentos da realidade existente - fotografias minuciosas do passado e da transformação no presente. Devem ser despidas do "eu acho que..." traduzidas em "verdades absolutas" pela elite "dona da verdade". Uma ganga elitista anula a possível transmissão de uma imagem da realidade. A pergunta sobre "o que queremos" não pode ser respondida apenas pelos intelectuais que debitam as suas formulas, muitas vezes fora de época e sobretudo longe do contexto geopolítico, humano, social e econômico existente. É preciso aprender a perguntar ao povo sem pretender ensinar-lhe a pensar. Pois ele pensa e sabe mais do que diz nas respostas às fórmulas habituais que circulam em uma sociedade criada para a elite.

Guardo lições ditadas por analfabetos com quem convivi na infância: "O Brasil não tem um povo, tem um montão de gente" (Cassiano, pedreiro, filho de escravos); "A vida não é uma escada, é um caminho" (Dona Justina, caiçara); "Quem despreza a gente é porque tem medo" (Brazília, cozinheira doméstica, filha de escravos). A leitura dos livros do Sítio do Picapau Amarelo ensina o que era o Brasil no século vinte, visto de baixo para cima e sem esconder a cultura importada da Europa que dominava socialmente. Monteiro Lobato desnudava o pensamento brasileiro e apontava a crítica necessária para a superação dos preconceitos que eram instrumentos do poder elitista, a começar do racismo, o machismo, a presunção classista, os "donos da verdade" que desconheciam os obstáculos reais. Precisou inventar uma boneca de pano e um de sabugo de milho para sugerir o futuro brasileiro que promoveria mudanças aliado às crianças educadas com liberdade. Misturou mitos europeus com os dos indigenas daqui e mais os que os africanos trouxeram, para abrir as portas a uma cosmogonia onde as diferenças se casam. Apontou um futuro em que, por respeito aos diversos pensamentos, a harmonia seria natural e criativa.

Autores comunistas descreviam os quadros da vida miserável em que viviam os trabalhadores e exibiam a inteligência que a pobreza não destruia, a alegria e  o respeito humano criativo, que eram divulgados por artistas geniais em sons e cores. E denunciavam os exploradores que acumulavam riquezas roubadas à natureza e às gentes brasileiras que não se amesquinhavam por "propriedade privada" e "ganância". Gente forte, gente sábia, gente que sobreviveu ao colonialismo e ao liberalismo e agora recusa o neo-colonialismo imperial. Gente que vai construir um Brasil independente.

Os colonizadores europeus trouxeram a cultura e as conquistas sociais alcançadas pelos Estados organizados através dos séculos, mas com a ambição de usar o novo território a favor das suas novas guerras intestinas, do fascínio pelo ouro e joias, com o sonho do poder total. Trouxeram também as contradições que minavam as suas nações, os que lutam pela liberdade, a fraternidade e a igualdade em vários idiomas. As elites tentaram implantar um pensamento congelado, que impedia o raciocínio e ameaçavam com os medos físicos e mentais dos opressores prometendo vinganças terríveis a quem levantasse dúvidas.

A dialética rompeu os grilhões. Era como o saci da mitologia afro-brasileira. Ninguem engole o saber do outro ou repete como papagaio os sons aprendidos. O Deus barbudo e severo e seus emissários santificados assumiram as feições que a cultura de quem convive com a natureza conhece, com sentimentos suaves e considerações éticas que abrem espaço para a harmonia e a alegria, bases para a justiça.

Os abusos nas guerras e no relacionamento doméstico, praticados pela elite, levaram o povo pacífico a criar defesas: surgiram os heróis do povo que lideraram ações libertárias de um Estado embrionário. Os modelos administrativos vindos da Europa desafinavam das necessidades sentidas pelas populações. Eram instituições próprias para a elite e os seus seguidores obedientes.

O modelo de revolução socialista penetrou como o antídoto à cultura da exploração europeia. O Cavaleiro da Esperança criou a guerrilha popular e atravessou o país, do sul ao nordeste, conhecendo a crueza da vida imposta aos povoadores do Brasil e traçando o caminho da luta. Chamou a atenção de pensadores de outros países latino-americanos e dos revolucionários da Rússia Soviética. Foi empossado como dirigente no nascente Partido Comunista. Tinha todas as qualidades de um herói nacional das gentes brasileiras, da maioria analfabeta à burguesia nacionalista. A ideologia aplicada por Lenin, que conheceu na Rússia revolucionária em plena criação de um sistema socialista, casou com os seus sentimentos puritanos cristãos. Pacientemente lutou pela constituição de um proletariado industrial e de um Estado social enquanto os abutres imperiais consumiam as riquezas minerais como lastro dos seus navios carregados com a produção agrícola barata exportada para a Europa.

Poucos intelectuais pensavam a realidade vivida pela maioria brasileira. Sequer observavam e faziam perguntas aos iletrados ou às mulheres que suportam a luta diária pela sobrevivência familiar. Alguns consideravam-se os seus interpretes, referindo teorias de origens diversas, de outras épocas e outras culturas. Interpretavam com os parâmetros da elite. Nos países subdesenvolvidos, colonizados ou dependentes do mercado e da cultura dos mais desenvolvidos, não havia diálogo entre a elite e a população. Os eleitos eram os cidadãos prestigiados "que pensam", apoiados pelos coroneis, por seus obedientes e alienados familiares, e mais o "voto de cabresto" do povo trabalhador. O resto era paisagem.

No Brasil a legislação era liberal, cópia do sistema europeu. Os preconceitos de classe, racista e machista, como pano de fundo na sociedade, pré-estabeleciam os pensamentos dos subordinados ao modelo dos cidadãos socialmente respeitados. As mulheres e os analfabetos eram os complementos naturais. As conquistas em nome da democracia só começam a ter vigência efetiva depois da Segunda Grande Guerra em que o fascismo foi vencido pelos aliados com o exército revolucionário soviético na vanguarda. O socialismo expandiu-se por todo o mundo como a ideologia alternativa ao capitalismo dominante.

A presença de Partidos Socialistas e Comunistas na vida política nacional abriu caminho para os projetos de uma democracia real. A militância progressista misturava diferenças ideológicas - anarquistas, cristãos, trotskistas, estalinistas e mais os que simplesmente defendiam os oprimidos e se rebelavam contra a presunção da elite.

A direita aperfeiçoou os métodos de dominação através da difusão literária, primeiro, e dos recursos da rádio, televisão e cinema, depois. Este tornou-se o instrumento fundamental nas campanhas eleitorais, na propaganda midiática e nos financiamentos privados de shows e mega-festas barulhentas e mediocrizantes. Ao impor um comportamento mecanizado e dominador, sem espaço para contestação, mantêm os que assistem subordinados à onda sonora e psicótica, obedientes à mesma elite que gere o poder financeiro. Uma versão moderna do antigo "cabresto dos coronéis" comanda, agora revestido de subtilezas dos que "fazem as idéias" através da cultura imposta como "moderna tecnologia".

No Brasil, com a Constituição de 1988 (onde no plano jurídico as mais visíveis restrições deixadas pela ditadura foram atenuadas), surge o anúncio da possibilidade de um regime político democrático. As forças de esquerda alcançam vitórias eleitorais, sobretudo a nível da representação municipal onde permaneceram sementes democráticas durante a repressão ditatorial, mas também nas câmaras estaduais e federais, com líderes que sempre lutaram árduamente em defesa das reivindicações populares mesmo fora dos períodos eleitorais. São os verdadeiros representantes da vontade dos oprimidos e da luta por uma transformação do Estado para que deixe de ser manobrado pela elite e realize uma administração democrática dos serviços sociais e econômicos para a independência e desenvolvimento da Nação.

Esta mudança afeta também a produção intelectual ao abrir as universidades a uma camada popular com representantes das vítimas dos mais variados preconceitos. Os temas sobre as diferenças impõem-se ao conhecimento científico, e até à mídia, ganhando as ruas. O direito a pensar com a própria cabeça estilhaçou as coleiras e grilhões. Desapareceu a névoa mental que subordinava a sociedade como um teto baixo de deveres e condições de cidadania.

Só assim pode haver uma produção intelectual integrada efetivamente na história brasileira, alimentada por um conhecimento dos que vivem a realidade suportada pela maioria da população, e as características de todas as regiõs do território brasileiro, sem a visão particular e supostamente superior de quem se beneficia dos recursos criados para a elite. As divergências que normalmente surgem nas análises teóricas serão explicitadas diante de fatos reais, com métodos científicos comprovados, e não apenas de interpretações da realidade enredados em conceitos abstratos e intraduziveis para a linguagem normal da população. O debate será sempre enriquecedor mas não mais como um campeonato de títulos universitários onde vence o que gritar mais alto.

Lula abriu o caminho para uma democracia quando venceu as eleições presidenciais em 2002. Foi um passo histórico que promoveu a participação de 61% de novos eleitores da esquerda e centro, desejosos de um caminho realmente alternativo . No entanto, para isto contou com forças políticas representantes de uma facção nativa da elite, discriminada pelos seus parceiros que assumiam o poder com a ajuda externa do sistema capitalista internacional.

No decorrer dos anos cresceu uma oposição interna às medidas governamentais favoráveis à integração de todos os cidadãos sem distinção de classe ou de etnia, de formação filosófica ou religiosa, de opção de vida. O processo de integração leva tempo para adaptar tanto os agentes sociais como o povo a um convívio igualitário. É uma mudança profunda nas convicções arraigadas pela cultura de uns e de outros, que exige um aprendizado social. Nem todos aguentam manter o entusiásmo na luta coletiva sem compensações individuais. A atração do conforto que cerca o poder é forte e "a carne é fraca" para muitos. Houve traições, insensibilidades e incompetências, que permitiram a sobrevivência de preconceitos contra a ascensão dos mais pobres.

O sistema capitalista aproveitou com a sua vanguarda financeira e uma política terrorista de expansão que enfraqueceu e quebrou a União Soviética provocando um abalo mundial nas organizações revolucionárias. No Brasil o pensamento democrático não foi assimilado pelos governantes da mesma maneira. Uns consideraram a participação popular fundamental para as decisões do Estado servirem os interesses da maioria, enquanto que outros procuraram dar aos mais pobres as condições de consumidores que o sistema estimula com a desigualdade e a corrupção. Os elitistas defenderam os seus privilégios de concentração do capital e das melhores condições de vida. Formou-se a mentalidade golpista para interromper o processo democratizante que ganhara o continente latino-americano e a admiração mundial. Mas, neste clima controverso, Dilma foi eleita por 54 milhões de eleitores. Os que defendem uma melhor distribuição de benefícios do patrimônio nacional e a participação nas decisões do Estado, exigem que os pobres sejam democraticamente integrados como cidadãos com os mesmos direitos sociais.

Vivemos um momento decisivo na história brasileira com repercussão na de toda a humanidade. Até hoje a evolução polítca só ocorreu com confrontos guerreiros. Ainda temos capacidade para defender as conquistas democráticas com os recursos jurídicos existentes na ONU a partir da definição mundial dos Direitos Humanos e da Paz para o Desenvolvimento Democrático. Haja coragem e brio!


Zillah Branco



terça-feira, 12 de julho de 2016

A grande mudança no Brasil



Os anos nefastos da ditadura militar, de autoritarismo e perseguição aos que defendiam a liberdade, dividiu a população brasileira que exercia a participação política em duas posições: a conservadora, apoiante da opressão -  no partido ARENA - e, em oposição, a democrática, no MDB que era um movimento social e político.

As discordâncias envolviam princípios políticos de liberdade - para que o país se desenvolvesse com independência, livre das pressões externas do imperialismo, e para que todo o povo conquistasse os seus direitos de cidadania - e a luta pelo poder autoritário, ou seja, apenas a substituição de uma elite (militar) por outra (civil) concorrente.

A esquerda clandestina, dos comunistas e militantes de movimentos sociais, trabalhou duramente junto ao povo dando apoio aos mais perseguidos, sem poder concorrer aos cargos políticos. Eventualmente foram acolhidos pelos democratas sob a legenda do MDB para serem eleitos e participarem do poder local. Muitos passaram pelas prisões, sofreram torturas e atè a morte. Tiveram os seus direitos de cidadania cortados, foram banidos da sua pátria. Grande número deles foi obrigado a exilar-se em outros países para poderem trabalhar e criar os seus filhos.

A luta armada e a pacífica foi mantida durante todos os longos 21 anos, conservando a chama da resistência e iluminando a esperança em todos os brasileiros que conservaram a consciência de que a liberdade é essencial ao desenvolvimento humano e da sociedade com a sua estrutura econômica e social.

O poder imperialista percebeu que as formas de opressão geravam a resistência de um número cada vez maior de pessoas que se afastavam dos políticos conservadores e descobriam o valor da democracia. Os próprios militares no Brasil se convenceram de que a ditadura esgotara a sua força. Foi aberto um caminho de transição para formar governos civis, e ser retomado o caminho democrático das eleições com a participação popular. Vestidos de democratas misturaram-se vários políticos cuja ambição individualista era apenas a de participar da nova estrutura de poder que se pretendia popular e voltada para a criação de melhores condições de desenvolvimento nacional e de vida para todo o povo. Com esta mistura o processo de transição seguiu, cheio de contradições.

Em 1988 foi produzida uma Constituição Federal pelos parlamentares que representavam os partidos que surgiram das duas forças políticas legais sobreviventes - ARENA e PMDB - e de outras que emergiram da clandestinidade com um passado histórico de esquerda, direita ou centro. Foi a Constituição possível, democrática (sem explicitar a ambiguidade do conceito), que admitia o voto dos analfabetos sem estabelecer os limites ao exercício do poder dos oligopólios nascidos das velhas oligarquias e da ação imperialista, que modernizava o sistema com aperfeiçoamentos tecnológicos, de gestão financeira da economia e de controle da mídia para a formação da opinião pública.

O PT nascia como uma esquerda moderna, livre do peso histórico que os partidos comunistas e socialistas carregavam suportando os preconceitos dos partidos de direita e até de centro esquerda recem-nascidos. A liderança de Lula, com o carísma pessoal de quem viveu a miséria como a maioria dos cidadãos brasileiros, e do trabalho sindical que liderava, ultrapassou as divergências intelectuais e ideológicas dos quadros do PT, conquistou o apoio massivo popular e atraiu franjas da burguesia que estava decepcionada com os problemas gerados pelo neo-liberalismo adotado nos dois mandatos de FHC a favor do enriquecimento da elite, e venceu a eleição presidencial em 2002.

Abria-se um novo caminho para o Brasil, tentando ser livre dos comandos externos com a matriz do neo-liberalismo, voltado para o desenvolvimento nacional com a integração dos milhões de trabalhadores pobres que passavam fome com as suas famílias e nem sabiam que tinham direitos de cidadania. O país reconhecia como parceiros os vizinhos de continente que, a exemplo de Cuba, recusavam a permanente sangria imposta pelo vampiro imperialista em que se transformaram os Estados Unidos aliado às nações mais ricas.

Muito foi feito desbravando o território brasileiro, criando infra-estruturas básicas para as populações dispersas, desenvolvendo o sistema de saúde e o ensino público, criando condições para integrar todo o povo nas instituições nacionais e acabando com o trabalho infantil, favorecendo os mais pobres com uma bolsa-família e promovendo pequenas cooperativas que organizaram o trabalho artesanal e de coletores rurais de produtos para entrarem no mercado sem a exploração dos intermediários. Nas cidades foi impulsionado o ensino superior e técnico de formação profissional, promovida a produção científica e de  varios ramos da cultura e da arte, criados incentivos financeiros para estudantes sem recursos, construção de casas populares, criação de restaurantes para atender os mais pobres, introdução da merenda escolar, e várias iniciativas para que o Brasil superasse as condições de subdesenvolvimento herdada do passado colonial e do poder de elites.

Mas as pressões contra este progresso - que dá prioridade aos mais pobres e ao desenvolvimento dos recursos nacionais incluindo a mão de obra que se foi formando,  e levava a uma melhor distribuição da renda nacional com a recolha de impostos junto às camadas sociais mais ricas - foram crescendo insidiosamente apoiadas pela mídia ao serviço dos oligopólios. Era a instauração de um regime democrático, e de um Estado social, que o sistema capitalista repudia para manter a concentração do capital nas mão da elite poderosa.

A culminação desta luta foi a execução do golpe que colocou Temer, o interino, no lugar da Presidenta legítima, Dilma Roussef, eleita por 54 milhões de brasileiros, com o falso pretexto de um impeachment sem base jurídica e com falsas alegações de crimes. Estranhamente o sistema judicial tem prolongado a contestação desse governo ilegal que trouxe para a administração da vida nacional a direita que tem sido sistemáticamente rejeitada pelo voto democrático.

Impõe-se uma solução urgente para impedir o desmonte das conquistas históricas que desde 2003 têm assegurado um caminho que garante a independência nacional, o desenvolvimento de um valioso patrimônio econômico e a criação de soluções para acabar com os sofrimentos da miséria que a maioria dos brasileiros suporta. Os movimentos sociais se estruturam e procuram a unidade com as forças de esquerda para registrarem em plebiscito a vontade popular. Não se pode admitir que persistam razões teóricas ou de interesses particulares que impeçam uma medida pacífica de expressão da vontade dos brasileiros. A luta é coletiva, urgente, patriótica, contra um ato ilegal programado por forças externas e realizado por traidores.

Zillah Branco