quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Virando a casaca?



O canal "Odisseia", dos Estados Unidos passou a divulgar no primeiro aniversário da morte de Fidel Castro - comemorado em todo o mundo pelos partidos e movimentos de esquerda - um filme de John Hedge, sobre o Comandante da Revolução Cubana . Ao contrário da sanha com que sempre procuraram demonstrar com injúrias o herói gigante que enfrentaram, sempre vencendo as perfídias do grande império ianque, o filme adoçou a linguagem com algum respeito pela figura histórica que "sempre  defendeu o povo cubano da fome e da miséria instaladas em Cuba por governantes corruptos e a máfia". Arranjaram uma maneira de deixar o imperialismo, que bloqueou o desenvolvimento de Cuba durante 60 anos, de fora.

Até Kissinger deu um depoimento tranquilo, sem salivar veneno como de hábito. E referem a boa opinião que alguns políticos norte-americanos tinham da capacidade de diálogo e de compreensão de Fidel, como foi o caso de Kennedy, (depois de colocar navios de guerra diante da Ilha para apoiar a invasão norte-americana à Baía dos Porcos e receber a visita do Presidente da URSS avisando que dotaria Cuba de mísseis para se defender),  em entrevista referiu Fidel como um homem que não temia a morte e lutava ao lado do povo com enorme coragem.

O filme nem mesmo deixou de mostrar o assassinato do presidente Kennedy, ocorrido em seguida à suspensão da invasão da Baía dos Porcos, dentro do território norte-americano. Ao ter que renunciar àquela invasão que destruiria a pequena ilha e sua grande revolução socialista, Kennedy pagou caro aos donos do império. O filme não entrou nas confusas  explicações, deixando para o bom entendedor tirar as suas ilações.

Enfim, depois de morto, Fidel foi reconhecido como tendo algumas boas qualidades pessoais e de bom governante pelos que o perseguiram tenazmente durante seis décadas (e tentaram centenas de vezes assassiná-lo) sem qualquer capacidade para impedir que, nas barbas dos Estados Unidos, sobrevivesse com êxito político imbatível uma sementeira revolucionária que sempre esteve presente junto aos movimentos de libertação da América Latina e África.

A habilidade dos defensores do sistema capitalista de adotarem uma posição contrária a que sempre tiveram de antagonismo com as características do socialismo na promoção do desenvolvimento social com condições igualitárias de vida - saúde, educação, habitação, transporte e emprego remunerado - para toda a população trabalhadora. Começam a chamar a divulgar agora algumas mudanças ocorridas no comportamento das suas elites imperiais. Estudam a maneira de aumentar as esmolas para que as populações possam sobreviver e consumir o seu mercado tóxico, dos alimentos às quinquilharias e aos grandes eventos anti-culturais, como se fosse um arremedo de socialismo sem revolução.

Em Portugal, referem o apoio da esquerda ao PS no Governo como uma "geringonça" inexplicável e, certamente, de pouca duração. Mas, passados dois anos em que foi atenuado o sacrifício da população miserabilizada pela austeridade imposta pela política da União Europeia e FMI para concentrar o capital nos Bancos privados, defendida a Caixa Geral de Depósitos sob a responsabilidade estatal, desenvolvidos processos que desvendaram desvios bilionários (que enriqueceram alguns banqueiros e políticos corruptos) resultante de depósitos pessoais que "desapareceram" devido ás convenientes falências bancárias, cresceu o prestígio do PS na Europa e tem atraído políticos dos grandes países para analisarem os bons efeitos da sua aliança com a esquerda que não exige cargos no Governo mas, sim, o respeito pela legislação trabalhista conquistada ao longo do século XX, e pelos protocolos de apoio democrático e social a todo o povo assinados com os organismos específicos da ONU para a Previdência Social.

Será que, diante da crise irreversível dos bancos, os defensores do capital resolveram abrir um pouquinho a mão para reduzir a distância quilométrica entre pobres e ricos? Surgem até discussões abertas para combater o consumismo que impede as classes médias de gerir com equilíbrio os seus parcos recursos.

Dá para acreditar que as elites criam vergonha, - apesar das longas listas de depositantes em paraísos fiscais para lesar o fisco - ou começam a se preocupar com o Juízo Final que ameaça o sistema capitalista e sua elite? Ou é apenas uma manobra para reduzir o excesso de "carrapatos" que aderiram como "especialistas tecnocratas" à elite e, com a recuperação dos "desvios" e outras falcatruas, a elite poderosa pode aumentar as esmolas sociais e reduzir o peso da austeridade?

Interessante a distância que a mídia internacional vai criando entre os impérios - liderado por Trump ou pela União Europeia - na defesa do sistema capitalista. Na Europa, que ainda recorda o horror da Segunda Guerra, preocupam-se em falar na humanidade sem descartar o capitalismo com o poder da elite, enquanto Trump recusa qualquer "desvio humanitarista". E foi o ministro das finanças de Portugal, pela capacidade de um governo PS apoiado pela esquerda, que foi eleito para liderar o Eurogrupo onde aplicará a sua tese de que "há uma disfunção na moeda única que prejudica os países do sul da Europa". Habilidade para manobrar com palavras caras não lhes falta.

De qualquer modo os combatentes revolucionários não acreditam que os direitos democráticos caem do céu e que os lobos de antes tornaram-se cordeirinhos. Este processo de "virar a casaca" não convence, pois permanecem os mesmos grandes senhores, mesmo sem gravata, agarrados ao poder globalizado.

Igualdade com os pobres nunca a elite poderá aceitar, pois são totalmente incompetentes para enfrentar a vida e a realidade dos comuns mortais sem os seus privilégios de classe e escravos domésticos.

Zillah Branco

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Respeitar o povo, para a direita, é uma questão "comezinha"



O Partido Socialista em Portugal, ao formar governo apoiado pela esquerda com a qual alcançou a maioria eleitoral em 2015, abriu um novo percurso ao país europeu tratado como um dos mais pobres do continente europeu. A elite de direita que comandava o governo desde a eleição de Mario Soares em 1976 quando aceitou as orientações de Kissinger, pelos Estados Unidos,  e da Democracia Social europeia, procurou apagar as conquistas da Revolução do 25 de Abril que permitira ao povo organizado na reforma agrária e nos sindicatos construir um caminho verdadeiramente democrático para toda a nação.

Em alternados governos do antigo PS e do PSD, Portugal foi diluindo o respeito pelas questões sociais que atendiam ao desenvolvimento humano e social da sua gente, e prestando vénias à elite europeia filiada ao imperialismo estadunidense com a criação da União Europeia. Tais vénias tornaram-se visíveis pelos gestos de política subserviente nas acções invasoras da NATO no Oriente Médio e Norte da Africa, além da participação na destruição da Jugoslávia, e no recurso a créditos vorazes do Banco Europeu para obras megalómanas que serviram interesses estrangeiros no "pobre" país enfeitado com recursos de luxo para receber turistas e favorecer mercados externos. Enfim, a conhecida fórmula da colonização que destrói as forças produtivas nacionais e importa os maus hábitos do consumismo das sociedades ricas vestidos de "modernidade desenvolvimentista".

Mas a história caminha com a dialética como parceira. As crueldades contra os dominados despertam as consciências éticas e valorizam as associações para a luta do povo unido. O pensamento progressista disseminou-se tanto pela via política de esquerda como pela noção de dignidade e solidariedade dos que não se satisfazem com riquezas supérfluas e costumam olhar com interesse a realidade social que os cerca. E o grande partido de direita em Portugal, os aliados PSD e CDS-PP ficou menor que a soma dos progressistas e perdeu a condição de governar. Dois anos são passados e o PSD não perde a "dor de cotovelo" nem adquire lucidez política. Empacou.

Segundo o porta-voz do PSD no Parlamento, deputado Hugo Soares, o Governo PS está refém da esquerda - PCP e BE - "para resolver apenas questões menores, comezinhas, de reformas conjunturais" e precisa do apoio do PSD para realizar "o mais importante para o país, que são as reformas estruturais". Traduzindo em "bom português", as questões "menores e comezinhas" dizem respeito à legislação trabalhista para repor salários e condições de carreira para a maioria dos trabalhadores a todos os níveis, ao apoio ao sistema de saúde nacional e ao do ensino público ameaçados pelos privilégios da privatização, ao desenvolvimento de condições de sobrevivência com dignidade aos pensionistas, ao fortalecimento da capacidade de sobrevivência da Caixa Geral de Depósitos sob gestão do Estado, ao reordenamento das florestas de modo a reduzir a destruição causada pelos incêndios, a redefinir as formas de segurança social para defender com competência as populações surpreendidas por acidentes climáticos e de origem criminosa, enfim a organizar o país para que a população seja respeitada e tenha garantia de proteção social.

O que o partido de direita, PSD, supõe ser "o mais importante, por referirem as reformas estruturais", tem a ver com o favorecimento aos lucros dos empresários nacionais e seus parceiros estrangeiros, ao reforço pelo Estado, dos capitais em bancos privados, à submissão incontestável aos (des)mandos da Troika que minou a soberania de Portugal e proporcionou o endividamento responsável pela austeridade que foi suportada pela população mais pobre com o desemprego, a emigração, a fome e a miséria em índices gravíssimos registados pelas organizações internacionais.

Até quando irá a capacidade do PS, no Governo de Portugal, de suportar a pressão dos políticos  de direita que estão na União Europeia e dentro de cada país membro, a favor da acumulação do capital e contra os interesses dos povos pelo desenvolvimento humano e nacional? A dúvida paira em relação à sobrevivência da humanidade e da natureza em todo o planeta.

Os processos de colonização hoje repetem-se, executados por elites nacionais de cada país onde a democracia tornou-se uma ficção. Não só ocorre no Brasil, que vai sendo oferecido em feira de saldos pelos traidores enquistados no Governo, mas em outros paises onde as conquistas populares foram esmagadas a mais tempo ou não chegaram a se instalarem como vitórias. É a moda da direita ocidental que usa um discurso democrático e movimenta as armas através de mercenários ou da NATO antecedida por uma falsa campanha em "defesa" do povo a ser vitimado. Puras falsidades a encobertarem perfídia, como Gandhi responsabilizava o Império Britânico, na luta pela independência da Índia ha quase 70 anos.

Foram aperfeiçoadas as formas de exploração e de escravidão, mas a perversidade das elites atingiu níveis que ultrapassam a normalidade do ser humano. Passou a ser mais que um mero egoísmo, ou uma simples alienação dos que vivem acima das dificuldades da vida, é um fenómeno patológico que requer atenção, médica como o gosto pela violência, pela visão do sofrimento alheio, pela extinção dos que os contrariam simplesmente por existirem. O ódio aos pobres e às minorias étnicas, o desprezo pelas questões sociais, revela-se na incapacidade da elite de distinguir povo de clientela, de confundir desenvolvimento nacional com aumento de capital.

Povos em luta, uni-vos!

Que a solidariedade internacionalista desvende as diferentes formas de ameaças que mascaram o novo colonialismo!

Zillah Branco

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Heróis/Bandidos




A história da humanidade passa por fases que acrescentam, vagarosamente expandidas, conquistas pessoais dos indivíduos que fortuitamente puderam conjugar a percepção sentimental e racional às condições de realização de actos de efeito social. Assim, foi fruto de uma época denominada do "romantismo", a figura de Robin Hood (que teria vivido no século XII e descrito como herói mítico na Inglaterra em meados do século XIX) como o esperto rebelde de uma classe poderosa que "roubava para dar aos pobres".

A comunicação social, ha quase dois séculos, divulga e promove este modelo, adaptando a sua imagem às modas mais prestigiadas nas sociedades modernas. Dessa maneira a cultura social do sistema capitalista mundial elogia a "coragem individual de quem contraria os princípios que fundamentam a estrutura jurídica institucional, para proteger os cidadãos marginalizados na sociedade".

É de notar o fomento do "individualismo" e da "protecção caridosa" dos "heróis defensores" dos que constituem os "marginais" da sociedade, ao contrário dos conceitos de "solidariedade humana e social" que justificam o "valor ético da luta colectiva em defesa dos direitos democráticos de uma classe social explorada por uma elite financeira politicamente poderosa".

Com as várias crises, próprias ao desenvolvimento do sistema capitalista como previsto por Marx e economistas de diversas tendências teóricas, e com as crescentes conquistas no âmbito da democracia e da justiça social alcançadas pelos trabalhadores unidos em sindicatos, no segundo milénio surgem alterações na forma de imposição do domínio imperialista no moderno processo de "colonização" de nações menos desenvolvidas por aquelas que participam da elite do poder financeiro e militar. Aos poucos desvenda-se a "utilidade do individualismo" para uma afirmação do poder elitista contra a realidade em que sobrevivem os povos.

Os habituais "golpes" para derrubar governos que, de alguma maneira defendem a soberania das suas nações frente às exigências dos "donos do mundo", dão-se através da corrupção de agentes destacados dentro da estrutura dos Estados e da formação mental de membros do sistema judicial, militar, policial. São os agentes golpistas que se sobrepõem aos seus colegas profissionais, com capacidade financeira e política vindas do exterior para anular critérios democráticos instituídos e adotarem medidas de exceção. Dessa forma, aparentemente legal, validam um efectivo golpe sobre os governantes que recusam as formas de corrupção oferecidas para atraiçoar a pátria. Evitam a violência das  anteriores acções armadas dirigidas pelas forças armadas do país visado.

Na América Latina, onde depois da chamada "década perdida" em que as economias nacionais foram destruídas pelo neo-liberalismo introduzido por Pinochet no Chile e pela acção do FMI nos demais países "em desenvolvimento", desencadeou-se um movimento de classe média com objectivo nacionalista mas também de unidade continental. Sob a liderança da Venezuela com Chaves e o exemplo de Cuba socialista, vários governos progressistas enfrentaram a oposição de direita para afirmar a soberania das suas nações perante o mercado e as pressões políticas e midiáticas imperiais, desenvolvendo um Estado Social para melhor distribuir a riqueza e combatendo as discriminações derivadas de um poder oligárquico escravista herdeiro do período colonialista no século XVI.

A fase das ditaduras militares que culminaram com o assassinato de Allende no Chile,  deixando um saldo de chacinas e prisões políticas em todos os países latino-americanos, transitou para o Oriente Médio e Africa em busca de petróleo e minérios de alto valor, na promoção das chamadas "Primaveras" resultante das invasões pela OTAN e consequentes assassínios de governantes que resistiram à corrupção. A tarefa destruidora ficou a cargo do "terrorismo" abastecido em armas por Israel e Estados Unidos, evitando comprometer directamente as Forças Armadas nacionais.

Combatido internacionalmente, o "terrorismo" (atribuído aos grupos com denominações árabes, treinamento e armas imperialistas) e fortalecida a participação social na América Latina, a pretexto de salvar o sistema capitalista das crises que minaram os governos ricos, voltaram-se contra os frágeis governos democráticos e progressistas com um novo modelo de golpe "legalizado" mediante farta corrupção. No Brasil Michel Temer e seus seguidores baixaram a cabeça a preços variáveis e minaram o sistema judicial e policial para destroçarem as instituições sociais e, por seu lado, agradarem aos poderes internacionais que os apoia, vendendo ao desbarato as riquezas nacionais.

Em outros países foram colocados, com apoio midiático (na função de ponta-de-lança dos invasores) expoentes milionários, tal como Trump nos Estados Unidos, cumpridores de ordens do poder financeiro mundial. Estes figurantes, se o movimento de massas manifesta a sua força reivindicativa, vestem a fantasia de Robin Hood e passam a distribuir esmolas aos pobres, carinhos às crianças, beijocas às velhinhas, caçarolas às "madames". E vendem a pátria às fatias na feira internacional. Circulam pelo mundo como caixeiros viajantes das industrias de armas, químicos e farmacêuticas, repetindo ameaças de um poder militar mítico com frases desconexas de baixo QI que desperta sorrisos dúbios nos interlocutores.

Na Europa, onde o Estado tem tradição milenar com feição social, a dança é outra. Levam à cadeia ex-governantes (como o ex-primeiro ministro Sócrates, em Portugal, e alguns outros destacados políticos acusados como corruptos com abuso de poder) e aplicam multas bilionárias ao banqueiro Salgado (do centenário Banco Espirito Santo) pelas fraudes fiscais e outras, em processos que não terminam nunca e dão matérias para manter a mídia ocupada em confundir os espectadores e leitores dos jornais e livros, enquanto desmoralizam, aos olhos do povo que exige justiça, as instituições judiciais, militares e policiais que resistem à dissolução moral que, entretanto, vai "comendo pela borda" políticos e agentes administrativos incautos.

De modo geral esta "virose corruptora" não respeita fronteiras. Basta ver a lista de ilustres personalidades que, para fugir ao fisco, colocam as suas reservas financeiras nos "paraísos fiscais", como reis e rainhas (do Império Britânico, por exemplo) que passam por respeitáveis e são sustentados pelos contribuintes que mal têm o salário mínimo para escapar à marginalidade social.

Os noticiários sobre crimes (que alternam as notícias dominantes dos grandes clubes de futebol e grandes "shows" de altos sons, cores e roupas caras, como se a realidade do dia a dia fosse assunto só para os pobres) revelam que os mais pobres vão para a cadeia e os ricos para as suas mansões com direito a múltiplas entrevistas (sempre em feição de Robin Hood) e promoção das suas pretensas qualidades, como vítimas do Estado que ameaça todo e qualquer bandido, como se um milionário pudesse ser um "qualquer". Herói-bandido vá lá.

Zillah Branco

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Qual é a lógica do capitalismo?

Zillah Branco *

Esta pergunta está na mente da humanidade, da maioria dos seres humanos que não se beneficiam da acumulação do capital nem dos privilégios do acesso à riqueza, nem mesmo da proteção do sistema judiciário institucionalizado. A maioria dos seres humanos hoje está na periferia do sistema.


Se a democracia realmente fosse aplicada no mundo, não seria possível assistirmos os despropósitos declamados pelo Presidente dos Estados Unidos no Japão sugerindo que aquele povo fosse amistoso com ele porque no passado a inimizade não deu bom resultado. Referia-se monstruosamente às duas bombas atômicas que mataram centenas de milhares de civis em Hiroshima e Nagasaki? E ninguém o levou para um manicômio? Nem protestou? O consolo que o mundo tem é ouvir programas divertidos criticando com ironia o Presidente, os políticos norte-americanos a discordarem das grosserias do Presidente, mas que continua a ser "O Presidente" de uma nação que se diz democrática. E que ameaça o mundo com a sua violência e prepotência.

Se a justiça social fosse aplicada de acordo com os princípios democráticos, o golpista Temer, e toda a corja que o apoia, não teria conseguido empobrecer o Brasil vendendo as riquezas patrimoniais como saldo aos amigos oportunistas, e cortado a bolsa família e as leis trabalhistas, além de congelar os orçamentos da saúde, da educação, da segurança social, destruindo a vida e as esperanças dos brasileiros que povoam esta nação!

Se a ética fosse respeitada dignificando os governantes poderosos do mundo desenvolvido, não continuavam a morrer afogados no Mediterrâneo ou no mar Egeu os milhares ou milhões de foragidos dos seus países invadidos pelos terroristas armados pelos imperialistas norte-americanos e europeus que abriram caminho com a OTAN em busca das jazidas de petróleo.

Se a solidariedade não fosse rejeitada como um princípio fora de moda, os milhões de africanos perseguidos por terroristas insuflados pela política capitalista não continuavam a morrer de fome arrastando a sua miséria pelos campos improvizados pela ONU.

Se houvesse no mínimo pudor, vergonha na cara, os monarcas britânicos não aplicavam milhões de euros nos bancos do Panamá e outros paraisos fiscais para fugir ao fisco no país que os sustenta. Nem o rei da república (?) espanhola colaborava com o sucessor de Franco na prisão de quem luta pelo respeito à autonomia da Catalunia! Afinal, reis e rainhas só deviam existir no baralho, pois saem mais caro que um orçamento de serviços sociais para atender as familias dos que trabalham.

Se a força e o poder do sistema capitalista só persiste matando e escravizando a maior parte da humanidade, roubando os Estados para lavar o dinheiro de drogas e corruptos, depravando a cultura tradicional para transformar em robôs as novas gerações, porque assistimos calados e coniventes sem capacidade de unir os povos para abrir o caminho para o socialismo?

Há um século os soviéticos provaram que existe uma alternativa real ao sistema capitalista que só busca a ganância e o poder explorador. É possivel, como provou Cuba, desenvolver com pobreza um povo culto, trabalhador e solidário, exemplo na formação de médicos que ajudam todos os países que necessitam apoio. É possivel, como provou o Vietnam ao vencer na guerra de extermínio a potência norte-americana super armada e com agentes químicos. É possivel, como prova a populosa China que tirou da miséria 400 milhões de camponeses e desenvolve o país que supera os limites da produção capitalista.

A Revolução Soviética, que criou escolas para formar militantes dos movimentos de libertação de todos os continentes e desenvolveu a ciência para chegar à Lua antes dos países ricos, aguentou quase 80 anos sob a pressão constante da Guerra Fria mantida pelos inimigos, ditos democráticos, que hoje exibem a sua crueldade, para quem quiser ver, na destruição dos seres humanos, da natureza, das noções de dignidade e de respeito humano, para quê? Para juntar dinheiro sujo e impor o seu poder nefasto.

Deixemos as diferenças e as vaidadezinhas que hoje são mesquinhas face à luta principal. A nossa união com os povos sacrificados é a única alternativa contra a barbárie que assola a humanidade, o único caminho da esperança de reconquistar as qualidades civilizatórias, criando as bases de um Estado social que garanta a vida de todos.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

A manipulação jurídica substitui as armas

Zillah Branco *

O sistema capitalista tenta superar a sua crise final mascarando a realidade com a ficção da democracia e do respeito pelo Estado de Direito.


Ao contrário dos inúmeros golpes militares que chacinaram sanguinariamente populações em todo o mundo, hoje fazem uso das leis para matarem as populações mais pobres pela fome e a miséria social, destruirem as riquezas que garantem soberania nacional, adoecerem as novas gerações pela promoção das drogas e de uma cultura anti-ética que as torna alienadas, e pela corrupção financeira que elimina figuras públicas que poderiam atuar construtivamente na transição da sociedade para uma melhor distribuição dos rendimentos a caminho do socialismo. Assim, os golpistas aparentemente não mancham as mãos com o sangue, e a consciência com o peso da traição à pátria e à humanidade. Pensam poder passar por "pessoas respeitáveis", eternizando a sua posição na elite dominante.

Para que isto seja possível, tentam idiotizar as populações com mega-shows que esbanjam a riqueza roubada aos sistemas públicos de saúde, de educação e segurança social, dando a impressão de que a população tem acesso a espetáculos de gente rica e é feliz; promovem campanhas de apoio alimentar e de roupas para os que perderam a sua casa e trabalho, da qual desviam grandes negócios paralelos de venda de produtos usados ou fora de validade e aplicam impostos sobre as esmolas entregues às vitimas; vendem produtos inùteis com imagens de "alta moda" e material de baixa qualidade para que os que têm algum salário o gaste em quinquilharias perecíveis e não no próprio desenvolvimento cultural; divulgam processos judiciais contra algumas figuras dispensáveis depois dos crimes e fraudes com o capital, para convenceremm a opinião pública de que a justiça atinge a todos da mesma maneira; enfim, de mil maneiras tentam transformar os trabalhadores em burros de carga e a população miserabilizada em paisagem exótica, para além de uma classe média manipulável para manter o mercado interno e a política de submissão aos interesses financeiros.

No entanto o povo é inteligente e desenvolve a sua consciência de classe explorada. Conta com pessoas que têm o privilégio da formação escolar e de uma saudável base cultural e ética que os apoia formando escolas, divulgando em música, filmes e depoimentos escritos as informações sobre a necessidade de organizar os trabalhadores e toda a sociedade para transformá-la em benefício da maioria e do desenvolvimento da produção.

As formas de associação popular têm sido alteradas pela conquista de novos conhecimentos que eliminam velhos preconceitos e ignorâncias convenientes à elite dominante. A linguagem compreensível para a maioria vence o formalismo acadêmico redutor e os preconceitos culturais. A compreensão da análise dialética permite distinguir na ação política a identidade de propósitos de tradições aparentemente opostas. Novas alianças serão feitas para abranger diferentes grupos que necessariamente compartem com honestidade os objetivos éticos e revolucionários. Não ha contratos com promessas improvizadas. Os princípios que deram origem a leis não se confundem com as rebuscadas interpretações de um pretenso "dono do saber jurídico". A realidade da vida popular condiciona os principais interesses de luta social, adequada ao caminho histórico da sua formação cultural.

A primeira condição é a coragem de pensar e agir com liberdade. A segunda é a formação de um coletivo atento aos possíveis enganos e capaz de, no debate, defender as melhores condições de luta. Não ha submissão oportunista ao comando elitista, mas sim debate exaustivo para escolher o passo revolucionário que todo povo pode dar desde que unido.

Recusa terminante à corrupção; às prisões arbitrárias; às multas milionàrias para manter a liberdade condicional; à chacina dos líderes populares; às torturas psicológicas impostas aos defensores do povo marginalizado; às perseguições aos que defendem o ensino de qualidade e os direitos dos trabalhadores; aos abusos de poder praticados por funcionários e agentes do Estado; à pratica de salários dezenas ou centenas de vezes maiores que o salário mínimo.

Unidos, venceremos!

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Individualismo, egoismo, alienação




O sistema capitalista vem trabalhando ha mais de um século para destruir a cordialidade entre as pessoas, a solidariedade natural que fortalece o convívio, para despertar o individualismo que se sobrepõe à qualquer partilha comum aos afetos. O objetivo é vencer e ultrapassar todos, ser admirado e até invejado pelas suas conquistas, pela segurança com que fala de cima para baixo, pela capacidade de usar o seu poder em qualquer lugar e ver o medo em quem o serve. O mundo está aos seus pés, a humanidade vive para serví-lo e para isto deve ser útil e prestável.

A quem serve esta postura autoritária e de superioridade em relação aos que se subordinam? Certamente a quem já detém um poder: económico, político, social ou militar. Ou seja, a quem tem o privilégio de mandar nos cidadãos que dele dependem. A dependência de uns (a maioria dos cidadãos) por outros (uma elite que concentra o poder), devido à desigual distribuição das riquezas, da formação, da saúde, das condições de vida e trabalho. Portanto, a inexistência de um regime democrático.

Os psicologos e psiquiatras deviam divulgar os males causados pela formação  individualista, que tem sido globalmente manipulada pelos "donos do poder" através dos meios de comunicação social e variadas formas de publicidade enganosa. As maiores vítimas de tal pressão social são as crianças e adolescentes, mas também adultos que cresceram com medo dos seus "superiores" e ainda os idosos e pessoas com carências orgânicas que reduzem a capacidade de se defenderem dos abusos dos prepotentes.

Por um lado, esta idéia de "superioridade" deforma o caracter da pessoa afastando-a do relacionamento normal com o outro que é considerado "inferior" por não ter tido os mesmos privilégios na sua formação; por outro lado, o conceito de superioridade deriva da sobrevalorização da riqueza ou da força, desconhecendo os valores éticos e filosóficos do outro. Quem se considera "superior" torna-se egoista, para não ajudar os demais que pretende dominar ou simplesmente despreza.

Em torno do egoista surgirão os mais débeis (que aceitam a proteção de um "superior", e os falsos amigos que o vão bajular para receber esmolas), mas dele se afastarão os que defendendem os seus direitos e a sua dignidade humana. É o quadro que as sociedades modernas hoje apresentam com maior visibilidade.

Esta é a imagem do próprio sistema capitalista que pretendeu abrandar a violência do comando anterior, medieval, de reis e chefes de Estado que condenavam à morte quem ousasse contrariar o seu poder ou à miséria os que não eram úteis às suas pretensões. Foi desenhada uma imagem com traços de democracia e de humanismo para permitir que os "inferiores" sobrevivessem com algum recurso financeiro para movimentar o mercado que alimenta o poder instituido. Em lugar da solidariedade que une os humanos por afeto, foi generalizada a "caridade" que distribui esmolas e promove o doador, mais uma vez definindo o "superior" que doa e o "inferior" que recebe. A violência física anterior foi substituida pela aparente benevolência dos poderosos, com a força da ilusão do respeito humano.

À medida em que o sistema capitalista aperfeiçoa a sua falsa imagem democrática, os individualistas fechados no seu egoismo alienam-se da capacidade de relacionamento afetivo. Muitos passam a sofrer do medo de se humanizarem, reconhecendo aí o seu ponto frágil para desmoronar aquela fortaleza aparente criada pelo seu ego e pelo poder que sabe exercer. Na verdade sabem que não construiram a auto-estima que só é sólida quando fazem parte de um coletivo que mantém laços de afeto e respeito mútuo - a família ou o grupo com que convive em igualdade de condições.

Se analisarmos os líderes populares que despontaram no mundo no último século e os Chefes de Governos que têm sido eleitos nas repúblicas de todos os continentes, vemos que o sistema capitalista sempre perseguiu e sacrificou os que assumiram valores humanistas e defenderam o caminho democrático e, ao contrário, tem apoiado um modelo perverso de Chefe de Estado, capaz de renunciar aos seus valores éticos e representar o papel de fantoche manipulado por um poder oculto, para esmagar o humano e promover o capital. O resultado tem sido traduzido na "austeridade" do povo trabalhador e no enriquecimento de alguns bilionários, com ar de mecenas para salvar náufragos, e de uma elite que domina as finanças controladoras da produção e da vida nacional.

É natural que os Presidentes ou Chefes de Governo eleitos ou golpistas sejam, cada vez mais, carentes de valores humanos essenciais (Bush, Temer, Trump, Rajoy, Theresa May, e tantos outros) para cumprirem o que o super-poder imperialista determine sem qualquer interferência de inteligência natural ou emoção humana. São "papagaios" que repetem o que lhes mandam dizer e evitam pensar para não sairem da linha. Burrificam-se e pensam que o povo é como eles, estupido também. O problema é que impõem decisões estúpidas que destroem as sociedades, provocam guerras, matam os mais pobres de fome, doenças e os crimes que divulgam como tema principal dos meios de comunicação.

Zillah Branco


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Independência, condição de soberania



A história da humanidade apresenta, ao longo dos milênios, várias formas de luta pela liberdade dos indivíduos quando estão ameaçados por um domínio explorador que não respeita a integridade e os direitos naturais dos seres humanos. Para o seu fortalecimento  agrupam-se a partir da família a outros com que tenham afinidades. O idioma é um forte laço que permite o entendimento e a troca de informações, que vão levar a reflexões sobre questões práticas ou abstratas e ao estabelecimento de princípios éticos e planos de defesa da comunidade.

No confronto com inimigos lutam e defendem os "seus". Vencidos e escravizados, a sua coesão sofre fraturas.  Ao surgirem momentos de libertação, voltam a unir-se aos que são capazes de restaurar a antiga comunidade. Procuram outras comunidades em condições de vida semelhantes às quais se associam dando origem a povos que aceitam normas de convívio e de organização social comuns.

Ao surgir um povo agressor, dotado de recursos e conhecimentos superiores à capacidade de defesa existente naquelas comunidades, lutam e sucumbem frequentemente. São escravizados para prestarem os serviços que interessarem aos dominadores. As formas de uso do poder corresponde ao estágio de desenvolvimento alcançado pela sociedade que se estabelece como "dominante", desde a definição do escravo como "animal" para suprir todas as necessidades do seu "dono", até o convívio social em que os vencidos vão constituir classes inferiores diferentes.

Toda a história do colonialismo explica a formação de Estados dominados pelas nações dominantes. Surpreende-nos que a literatura do início do século XX revele a "descoberta tardia" de que os seres humanos dominados quando ainda viviam em comunidades dispersas não eram "animais". Tal "crença" foi alimentada por correntes religiosas que defendiam o sistema da colonização, apesar de existir uma discussão intelectual, fechada entre os eruditos, que a contestasse há, aproximadamente, quatro séculos. Assim foi estruturado o preconceito racial, vigente nos dias de hoje, que sempre favorece o sistema de exploração social e econômico.

Com o evoluir do conhecimento científico e as conquistas dos trabalhadores de seus direitos humanos e sociais, o domínio sobre povos considerados "subdesenvolvidos" ou do "Terceiro Mundo" passou a ser contestado por correntes filosóficas, religiosas e políticas que se expandiram pelas sociedades através do sistema de ensino universitário, da comunicação social e da formação de partidos e movimentos sociais. Durante o século XIX proliferaram as ações revolucionárias tanto na Europa como em Estados colonizados que introduziram o conceito institucional de soberania ligado à condição de independência a ser desenvolvida como um processo gradual de criação de estruturas jurídicas, econômicas e políticas.

Na sequência da revolução industrial e da disseminação do movimento republicano e da libertação dos escravos nas nações europeias e suas colônias, ocorrem as duas grandes guerras que definem um novo desenho das nações soberanas e da correlação de forças entre elas. Como instrumento de equilíbrio e diálogo é definida em 1945 uma Carta das Nações e a Organização das Nações Unidas, com os vários serviços específicos para atender e promover as conquistas da humanidade. Idealmente estabelecia-se a igualdade de direitos nacionais e individuais para todos os povos.

Somos já três gerações adultas a acompanhar o exercício desta instituição internacional que afirma o direito dos povos de viverem em harmonia graças ao respeito pelos direitos democráticos dos Estados existentes e de igualdade das suas populações. O conhecimento da vigência da ONU em mais de sete décadas, mostra-nos a necessidade  dos povos - em especial as classes trabalhadoras, mas também de estudiosos vários que defendem os princípios de igualdade dos cidadãos e de democracia do sistema social, econômico e político nos países, - manterem uma luta permanente para contrariar a tendência das elites poderosas de explorarem de todas as formas os trabalhadores e privarem as suas famílias das condições necessárias de sobrevivência com acesso à defesa da saúde, à formação escolar, à habitação condigna, à segurança social, que existe para os estratos sociais mais abastados na sua sociedade. A igualdade de direitos é prometida a nível judiciário mas, comprovadamente, não existe na vida real. Ou seja as leis existem, mas não são aplicadas a favor de qualquer cidadão. O mesmo ocorre com a democracia - depende da vontade da elite poder. É uma característica do sistema onde domina o capital.

Os direitos de cada cidadão são avaliados à luz dos preconceitos com que a elite poderosa que comanda o sistema defende o seu poder: de classe, de raça, de idade (as crianças e os idosos são desprezados), de gênero, de opção ideológica e religiosa. no entanto existem leis sobre a igualdade entre todos.

Também existem desigualdades "justificadas pelo sistema" decorrentes da condição do Estado em relação à metrópole que o coloniza ou do acordo firmado com uma Federação ou União. De modo geral a Nação gere as relações dos seus Estados, autônomos ou não, com as demais nações, e recolhe uma percentagem da economia para manter um equilíbrio entre todos e garantir a defesa geral.

Na América Latina temos assistido os efeitos catastróficos dos tufões e outros acidentes climáticos que destroem as habitações, as infra-estruturas sociais e dizimam as populações (colonizadas por ricas nações europeias ou pelos Estados Unidos), e depois recebem das metrópoles uma ajuda como outros paises oferecem a título de solidariedade. Se alargarmos a vista, veremos que o mesmo ocorre em outros continentes (ainda "subdesenvolvidos") da mesma maneira senão pior. Na rica nação dos Estados Unidos os fenômenos climáticos devastam sempre os Estados onde vivem os imigrantes africanos e latino-americanos, sendo um território retirado ao México em tempos passados.

As lutas pela independência são cada dia mais difíceis diante da concentração dos poderes internacionais nas mãos de uma elite internacional que resultou da formação da ONU sob a liderança dos Estados Unidos. Mas existem vários Estados europeus que conseguiram um estatuto de autonomia que lhes permite manter algumas características próprias relacionadas com o idioma e alguns aspectos da cultura originária. Neles o povo passa a vida vigiando para não ser prejudicado pelo governo central federal que, de modo geral, mantém o preconceito contra o "irmão" que afirma com orgulho as suas diferenças.

Este foi o caso da Catalunha, Estado autonomo e fonte de riqueza da Espanha. Com história passada de lutas e vitórias, fortaleceu-se durante o período em que a Espanha adotou o regime republicano, promovendo a industrialização. A ditadura de Franco instituiu um regime parlamentar com o rei indicando o Presidente e aboliu as instituições criadas pela Catalunha - segurança, saúde, ensino, cultura - e proibiu o uso do idioma catalão. Com o fim da ditadura,1975/89, todas estas instituições foram recuperadas criando-se um novo estatuto de autonomia.

Em 2006 o governo de direita de Mariano Rajóy declarou não válidos alguns artigos, gerando uma relação considerada de discriminação contra os catalães que defendiam o seu idioma e cultura como "nacionais" e a organização política republicana e autônoma.

Para solucionar o problema tratado pelas instância jurídicas do governo espanhol, o Presidente do governo catalão convocou em 2017 um referendo popular com mais de 2 milhões de eleitores obtendo 90% a favor da constituição de um Estado independente. O governo central enviou forças policiais que invadiram os locais, levaram urnas e feriram centenas de eleitores. Para conduzir um diálogo com o governo da Espanha, o governador da Catalunha apelou para que a população respeite a paz social e colabore com as suas opiniões sobre os passos de um processo para serem criadas as condições para a independência.

Não é fácil introduzir nos debates políticos que ocorrem sob as regras autoritárias do sistema capitalista, a idéia de que as decisões de mudanças de relação entre Estados evoluem como um processo que recebe a participação popular. A república de Cuba, revolucionária e independente, reconhece a importância de atos como o da libertação dos escravos pelo proprietário rural Céspedes no século XIX desencadeando um movimento histórico que deu início ao processo revolucionário que levou à conquista do socialismo.

Também não é fácil o diálogo entre os que consideram a independência uma necessidade para impedir a imposição autoritária de medidas que eliminam a liberdade de um povo e os que veem a independência de um Estado dominado como a perda econômica e política de parte do seu poder.

Zillah Branco